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PRESIDENTE DA JUNTA, EM ENTREVISTA AO "PORTAL DE GOUVEIA"

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Entrevista do Portal de Gouveia a João Amro - Presidente da Junta de Gouveia... João Amaro, antes de mais, obrigado, por ter aceitado o convite do Portal de Gouveia… O João tem dedicado muito da sua a vida a Gouveia…na política, no desporto…na rádio… Vamos por partes…

1. Durante muitos anos foi o braço direito de Santinho Pacheco, na Camara Municipal, mais tarde no Governo Civil, Santinho Pacheco é sem dúvida a sua maior referencia politica, e o causador, no bom sentido, do João ter dedicado grande parte da sua vida à política/causa pública?

 

R.: A expressão de ser o “braço direito” de alguém pode revelar-se um pouco pedante, senão mesmo perniciosa e, por isso, não a aprecio particularmente. Mas admito que ela possa, enquanto metáfora, ilustrar uma relação de grande apreço (para não dizer de “cumplicidade”, no bom sentido do termo) com uma das maiores referências políticas, não exclusivamente minha, mas do nosso Concelho e da nossa região como foi, e continua a ser, Santinho Pacheco. Por isso, não escondo o quão gratificante foi trabalhar com ele na Câmara Municipal e, mais tarde, no Governo Civil da Guarda. Foi um significativo percurso de serviço público, de cerca de catorze anos, trilhado e partilhado em comum. Repare que eu tinha 26 anos quando, em 1986, fui convidado para integrar o seu Gabinete, na Câmara. Santinho Pacheco era, na altura, também um jovem Presidente de Câmara com 33 anos. Foram anos de grande entusiasmo e empenho na concretização de muitas ideias e projectos, das infra-estruturas básicas aos equipamentos: a remodelação das redes de águas e esgotos de Gouveia, a construção das ETAR de Gouveia, Arcozelo, Vila Nova de Tazem e Folgosinho, o alargamento da EN 232, a criação e construção da Escola Preparatória de Vila Nova de Tazem, a instalação do Museu Abel Manta, a criação da Biblioteca Vergílio Ferreira, a remodelação e reabertura do Teatro Cine, a Central de Camionagem, as Piscinas Cobertas, o arrelvamento e iluminação do Estádio, a construção da Zona Industrial, a construção da Residência de Estudantes, a aquisição da ex-Auto Garagem, dos Belinos, da Sociedade Industrial, a preparação e aprovação de projectos importantes como a Variante de Gouveia, o novo Palácio de Justiça, a nova Escola Básica, a Pousada da Juventude… e decerto que a memória me está a atraiçoar, pois pressinto que o rol pecará incompleto… Foi um trajecto e uma aprendizagem de vida que muito me orgulha ter cumprido e que me continua a estimular enquanto autarca de Freguesia; é que a vida autárquica é sempre uma missão inacabada…

2- O João, ao longo dos tempos, tem passado por diversos ciclos políticos, sempre directa ou indirectamente com responsabilidades politicas, que diferença nota no processo de gestão autárquica de hoje com os dos anos 80/90,os ciclos hoje são mais exigentes?

R.: Olhe, faça apenas este simples exercício de memória: quando entrei para a Câmara (e isto era válido para todas as Câmaras e para a generalidade da administração pública), os ofícios ainda se dactilografavam em “velhas” máquinas de escrever, em papel de três vias. O Fax ainda não existia. Comprar um Telex, na altura, foi um luxo e um enorme avanço comunicacional…O computador ou a internet eram miragens… e toda esta evolução tecnológica andou a par das grandes transformações de processos e de mentalidades que, obviamente, também tiveram reflexo no exercício da gestão autárquica, impondo novos objetivos e novos paradigmas de exigência. Em menos de duas décadas passou-se da fase da implementação das infraestruturas básicas- a água, os esgotos, as estradas, a electricidade – para novos patamares reivindicativos. A uma gestão quantitativa contrapõem-se, agora, padrões de bem-estar e de qualidade. Há hoje, sem dúvida, um novo olhar e novos reptos, muitos deles imateriais, que desafiam o desempenho da actividade autárquica dos tempos modernos. A tónica da gestão passou do betão para as pessoas.

3- Calculo que seja um grau de enorme exigência ser hoje Presidente de Junta, ainda para mais num ciclo que se abre com a união de freguesias…?!

R.: Como lhe disse, os níveis de exigência são hoje muito diferentes, até porque também são outros os modelos e graus de necessidades que inquietam os cidadãos e a comunidade. Longe vão os tempos em que a principal preocupação era a limpeza da rua, o buraco no caminho ou a lâmpada fundida, por exemplo. Por isso se tem vindo a alargar o leque das atribuições e competências das Freguesias que deixam de ser agentes subsidiários da acção das Câmaras Municipais para serem parceiros que agem em articulação, como determina a nova legislação recentemente dada à estampa. Hoje, o autarca de freguesia confronta-se com outro tipo de carências e problemas inerentes aos tempos modernos. A desertificação, o envelhecimento da população, o desemprego, a emigração ou a pobreza são realidades que obrigam a um novo olhar e à emergência de outro tipo de intervenções. Veja o que se passa no nosso Concelho, e valha a verdade que se diga, um pouco à semelhança do que se passa em todo o interior do País; Gouveia perdeu na última década mais de 2.000 pessoas, quase metade da população caminha para a dependência da solidariedade estatal, entre reformados e pensionistas, beneficiários do rendimento social de inserção e a mais alta taxa distrital de desempregados; temos um dos mais baixos índices de poder de compra, não temos capacidade de fixação de jovens nem de atracção de novos habitantes, o tecido económico é aquilo que se conhece… Gouveia vive o espectro de cidade-fantasma. Hoje em dia, como tive oportunidade de dizer a quando da tomada de posse, é uma falácia dizer-se que se vai fazer isto ou aquilo em prol do desenvolvimento, o que cria uma falsa expectativa que depois não encontra eco na realidade; não, tudo o que se possa fazer é, sobretudo e antes de mais, um contributo para a nossa sobrevivência!

4- O PS, perdeu a Camara Municipal em 2001,a partir daí, não mais conquistou o eleitorado do concelho, no que a Camara Municipal diz respeito, o que acha que tem faltado, a este PS?

R.: Antes de mais, deixe-me que lhe diga que quer João Paulo Agra, quer Armando Almeida, os anteriores candidatos do PS, tinham e têm qualidades e atributos que fariam de qualquer um deles um bom Presidente de Câmara. O que acho é que o nosso Concelho é sociologicamente conservador, com uma população maioritariamente idosa, muito dependente e, por isso, muito avessa a mutações, o que prejudica qualquer estratégia de mudança, por mais válidas que sejam as propostas e mais aliciantes as alternativas. Por outro lado, uma gestão com mais de uma década, fortemente personalizada, é sempre propiciadora de uma rede de dependências e subordinações que condicionam a viragem. Se a isto juntarmos uma governação de “obra para encher o olho”, suportada por uma forte máquina de propaganda, chegamos à conclusão que não era fácil inverter a situação.

5- O João tem resistido a esta, a esta supremacia eleitoral do PSD, no concelho, qual é o segredo, para o conseguir e por exemplo os vários camaradas de Partido, não o conseguirem? Tem se falado muito, durante anos na candidatura do João Amaro à Camara Municipal, porque é que nunca aconteceu?

R.: Percebo a sua pergunta e respondo-lhe com toda a sinceridade. Uma candidatura à Câmara nunca foi, nem é para mim uma obsessão; e nunca aconteceu porque a vida partidária, como você sabe, obedece a lógicas e regras que, em determinadas circunstâncias e contextos, levam a outro tipo de escolhas, com toda a legitimidade; por mim, tenho sempre manifestado disponibilidade para protagonizar todo e qualquer desafio que o meu Partido considere que me deve acometer. Sobre o meu papel e desempenho enquanto Presidente de Junta, acho que o eleitorado avalia cada caso e, nalgumas situações, “não põe os ovos no mesmo cesto”, até porque em eleições autárquicas vota-se para três órgãos em separado. E o eleitorado não o faz tanto por um mero jogo de equilíbrios de poder, mas porque se revê nas propostas ou na garantia de confiança que lhes dão cada um dos candidatos. A sua pergunta podia muito bem ser feita a outros colegas meus, também eleitos pelo meu Partido, como o Mário Alberto em Vinhó, o António Morais em Vila Franca da Serra ou, ao contrário, nos tempos de gestão socialista, ao Félix Gonçalves de Nabais, por exemplo…

6-João falemos um pouco de outras das suas paixões…a Rádio… O João sempre esteve ligado à Radio…è verdade que existiram várias propostas para a compra da Rádio Antena Livre de Gouveia?! Se houve, porque é que o processo nunca avançou?

R.: Hoje sou mais ouvinte que colaborador da nossa rádio, apesar da responsabilidade que ainda tenho, enquanto presidente da assembleia-geral da cooperativa proprietária da nossa estação. A rádio foi, sim, uma paixão, um tempo mágico que começou no início da década de 80, num tempo das “rádios piratas”, de emissão “com emissor às costas” a fugir dos serviços radioeléctricos, de fruição do “fruto proibido”… Bons tempos! Os tempos de hoje não são de feição à actividade da radiodifusão que requer um estrutura muito profissionalizada e significativos investimentos em tecnologia. Veja quantas rádios locais já não fecharam ou foram vendidas! A Rádio Antena Livre padece, há muitos anos, do mal que é comum a todas as estações do interior: inserida num meio económico deprimido, sem apoios oficiais, sem uma larga e consolidada carteira de anunciantes – porque a publicidade é a única fonte de receita - que lhe permita, sequer, fazer face às despesas correntes, há muitos anos que a ALG acumula prejuízos e vê aumentar o seu passivo. Por isso sobrevive do crédito que alguns directores e a banca lhe vão concedendo. É verdade que tem havido abordagens e algum interesse por parte de alguns operadores, no sentido de avaliarem a possibilidade de aquisição da Rádio. Essas negociações, tanto quanto sei, continuam a decorrer. Mas acho que também não interessa vender apenas por vender e ver transformada a estação num mero repetidor de um grande operador. Quem comprar, defendo eu, tem de continuar a assegurar uma forte ligação à nossa região, com programação própria, dirigida ao nosso público ouvinte e que defenda e promova a nossa identidade.

7- A Rádio tem perdido ao longo dos anos algum fulgor, e alguns reveses, como por exemplo o desaparecimento de muitas pessoas que davam muito de si à rádio…a falta de dinheiro, é certamente um motivo de enorme preocupação?

R.: Isto é um círculo vicioso; se não há dinheiro para pagar a profissionais e adquirir equipamentos isso tem reflexos na programação; não havendo uma programação aliciante e apelativa, também não há investimento publicitário e assim sucessivamente… E, como é óbvio, uma Rádio que se tem mantido apenas com a dedicação voluntária e graciosa dos seus amigos e colaboradores, sofre duras contrariedades quando, infelizmente, vê desaparecer entusiastas como o Cadete Lopes, o Tó Zé Falcão, o Carlos Bicker…

8-Da rádio para futebol…o Desportivo, é outra paixão…como tem analisado estes anos o comportamento do Desportivo… Este ano a época corre de feição, será que na sua opinião podemos ambicionar a uma subida de divisão na sua opinião?

R.: Pois… Como eu costumo dizer, todos nós temos o nosso clube de afeição, eu sou benfiquista, você é sportinguista… o “Desportivo”, para mim, é muito mais do que isso. É o Clube da minha vida, pois como toda a gente sabe, devo ao clube, em muito, a minha condição de gouveense. O meu pai, como todos sabem- “velha glória do Desportivo”- veio para Gouveia “atrás da bola”. E este ano, que é singular, já que o Clube está a comemorar as suas Bodas de Ouro, parece-me ser ano “sim”. Acredito que estamos no bom caminho para subir de divisão, o que seria uma bela prenda em ano de aniversário especial. De resto, a satisfação é ainda maior quando se verifica que também a equipa de Juvenis e a equipa de Juniores ainda não provaram o sabor amargo da derrota. Deixe-me sonhar: já viu o que era subirem as três equipas?

9- João, como é o relacionamento com a Camara Municipal, sendo o João de um partido contrário ao poder?

R.: Como não podia deixar de ser, o nosso relacionamento é institucionalmente correcto, como sempre foi com os anteriores executivos e com o anterior Presidente da Câmara, no respeito pela autonomia e na observância das competências e responsabilidades de cada um. Se me pergunta se este relacionamento institucionalmente correcto tem correspondência no atendimento daquelas que são as nossas legítimas pretensões e expectativas, sou-lhe sincero e digo-lhe que não, que estão ainda muito aquém daquilo que para nós seria desejável. O óptimo é inimigo de bom. Ai do Autarca que se dê por satisfeito! Sem berros, nem alaridos, a cada momento porfiamos, concordamos quando tal se justifica, discordamos e dizemos porque é que divergimos noutras situações. É nesta salutar dialéctica política que, cada um, encontrará o melhor caminho para cumprir os seus objectivos.

10-Terminávamos com uma pergunta que se torna inevitável, será em 2017,que poderá ser candidato? Tem essa ambição?

R.: Compreendo a sua insistência, mas acho que fui bem claro na resposta que já lhe dei anteriormente. Neste momento apenas estou entusiasmado e empenhado em cumprir bem a missão que o povo de Gouveia, largamente, me confiou.

Muito Obrigado, João Amaro e felicidades para futuro

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